30.11.10

oh là là, ça glisse !

Place Louis Pradel/Opéra de Lyon
Jardins da Universidade Lumière Lyon 2

Hoje tivemos a tarde mais infantil dos últimos tempos. Há alguns dias tivemos nosso primeiro contato com a neve, que se apresentou tímida, sem se acumular nos tetos e nas calçadas. E ainda assim nos divertimos, andamos pelas ruas a olhar para o céu, tentando capturar flocos de neve com as mãos (e com a boca). Mas hoje foi possível viver aquela cena de filme em que se abrem as cortinas da janela e se vê o teto todo branquinho e a neve caindo lá fora. Eu gritei sozinho em casa, e o nestor ficou como uma criança querendo sair da sala de aula para ir brincar na neve. E enquanto muita gente queria voltar para casa (já com as linhas de ônibus e metrô paradas), passeamos pelas ruas cheias de neve, tomando cuidado para não escorregar. Ça glisse ! - exclamou uma guria ao sentir o chão deslizante. E tudo ficou coberto de branco: carros, bicicletas, árvores e estátuas. Duas experiências remarcáveis: verificar que os cristais de neve podem ser vistos a olho nu; e fazer a primeira bola de neve, que coisa mais leve e divertida!

floquinho de neve na minha luva

Até amanhã deve nevar até 15cm e a temperatura para os próximos dias está prevista entre 2 a -7° C.


27.11.10

mes colocs

No Brasil quando um jovem decide sair de casa, ou para estudar ou trabalhar, geralmente por volta dos 19/20 anos, ele vai morar sozinho num pequeno apartamento, ou dividir com um amigo já conhecido um apartamento de dois quartos. Aqui na França os aluguéis são tão caros - em Paris um quarto em residência estudantil, com banheiro coletivo chega a custar 400,00 euros (R$ 950,00) - que os jovens que vão para grandes cidades estudar - aqui o normal é trabalhar só depois dos 28 anos, dividem apartamento com outros estudantes desconhecidos. Ou em outro caso, os donos de apartamentos alugam os quartos de sua residência para esses estudantes. O processo de colocation tem aumentado muito na França, inclusive é apoiado pelo governo, que diante da falta de residências estudantis, têm criado incentivos para que surjam novas modalidades de habitação: co-locação, companhia para velhinhos...
Quando chegamos em Lyon, antes de acharmos nosso pequeno estúdio, ficamos hospedados duas semanas na casa de uma senhora francesa com filho adolescente, que alugava três dos cinco quartos do seu grande apartamento para estudantes. Ela nos cobrou 120,00 euros por semana por um quarto.

Colocation/Lyon - de 250,00 à 500,00 euros por mês
Colocation/Paris - de 400,00 à 750,00 euros por mês

Calçado neste tema, Riad Sattouf, autor dos quadrinhos La vie secrets des jeunes, criou no início deste ano o projeto de web-série Mes Colocs para o CanalStreet - um segmento do CanalPlus: pequenos episódios de dois minutos, que falam da vida dos estudantes na modalidade de colocation. Um besteirol sem fim - porque por aqui também tem muito e todo mundo precisa relaxar as vezes (rsrsrs), que foi exibido na TV e na internet. Separei os três primeiros episódios, quem quiser tem mais no YouTube.

26.11.10

o inverno já está aqui

Os primeiros floquinhos de neve começaram a cair hoje em Lyon. Segundo os jornais três semanas antes do normal ou seja lá pela metade de dezembro. Ainda estamos no outono e a previsão é de um inverno tão ou mais rigoroso que o último. Algumas cidades na França já estão em alerta laranja. Mas por enquanto está lindo de ver. Foi divertido ir hoje cedinho para a universidade brincando com os cristais de gelo que caíam. Vinicius até abocanhou alguns, rsrsrsr.

Nas fotos abaixo, as últimas imagens do outono, feitas no fim de semana no pátio do Musée de Beaux-Arts e os primeiros floquinhos(tímidos) de neve hoje de manhã no pátio do nosso prédio.




O video abaixo foi feito em janeiro desse ano.


19.11.10

basquiat e larry clark no MAM de paris

Basquiat em ação

Teve início no dia 15 de outubro de 2010 e segue até 30 de janeiro de 2011 no MAM-Musée d'art Moderne de la Ville de Paris, a exposição BASQUIAT, retrospectiva do artista americano de origem porto-riquenha/haitiana nascido nos anos 1960 no Brooklyn e que morreu aos 27 anos de overdose em New York. Da cena emergente de grafiteiros do final dos anos 1970 nos Estados Unidos, foi o primeiro nesta mesma época a assinar suas obras sob o codinome SAMO, acompanhado dos símbolos de uma coroa e de um copyright. Não demorou muito e ele transferiu seus traços dos muros para as telas.

Basquiat - Bird on Money (alto) e Pecho, Oreja

Suas referências misturam a afirmação de suas origens com mitologia, religião, violência, quadrinhos, e elementos africanos. Nos anos 1980 ele criou várias obras em parcerias com Andy Warhol.
A exposição de Paris reúne uma centena de obras: objetos, pinturas e desenhos, todos cedidos por diversos museus americanos e europeus e permitem acompanhar em ordem cronológica suas criações.

Semana passada estreou no CNP Bellecour o documentário Basquiat: The Radiant Child de Tamra Davis (2010). O filme vou ver no fim de semana e a exposição nos planos na ida a Paris em dezembro.



No mesmo MAM, até dia 02 de janeiro de 2011 outro americano ganha exposição:Larry Clark. A mostra Kiss the Past Hello, tem gerado diversas polêmicas aqui na França. Larry Clark, fotógrafo e cineasta conhecido por Kids(1995) e Ken Park (2002), sempre explorou os adolescentes americanos como tema de uma forma crua e realista, e sua exposição de fotos está vetada a menores de 18 anos. Os jornais liberais da França dedicaram várias páginas de seus quotidianos para criar artigos de protesto contra a decisão de interdição dos adolescentes à exposição. Coisa que não faz o menor sentido mesmo: a obra de Clark é sobre adolescentes e para adolescentes também, não exclusivamente, é obvio, mas o que ainda torna a medida mais absurda é que jamais seus filmes tiveram tal classificação na França. Vai entender...

Imagens da exposição Kiss the Past Hello de Larry Clark

Vídeo da vernissage em Paris

os franceses como eles são

Essas propagandas do jornal Le Parisien dizem muito sobre os franceses. Em dois meses já presenciamos algumas dessas imagens - e mais de uma vez, aqui pela cidade, principalmente a do banheiro e do trânsito.

18.11.10

cantinhos preferidos


Tem coisa melhor do que descobrir aquele lugar meio escondidinho - as vezes nem tanto - super aconchegante e que você pode passar uma tarde inteira lá sem ter que gastar nada, ou sem ter que gastar muito e ainda pode usar internet, ler ou ver um monte de coisas? Aqui em Lyon esses lugares pipocam em toda esquina, uns mais conhecidos, turísticos, outros menos. Elegemos três lugares que já se tornaram em pouco tempo, destino frequente das nossas saídas aqui na cidade. Se você vier a Lyon e dispõe de tempo, vale a pena conhecer.

** Raconte-moi la Terre **
14 rue du Plat 69002 Lyon


Esse lugar é uma loucura para amantes de viagens. A maior parte da livraria é de guias e livros dedicados ao tema. Dá para passar horas dentro planejando ou mesmo idealizando aventuras. Ainda tem um café simpático com exposições de arte e internet WI-FI gratuita ( se você consumir um café). Tá de bom tamanho, não? A livraria ainda tem uma sessão grande de livros infantis e de BD (quadrinhos), muitíssimo apreciado por aqui. Reza a lenda que a França é um dos poucos países onde se pode trabalhar e viver ilustrando exclusivamente quadrinhos.

** La Bourse - Bande Dessinées e Mangas **
8 rue Lanterne 69001 Lyon


Nós nem somos tão aficcionados por quadrinhos mas passamos um tempão nessa loja que fica pertinho de casa. La dentro dois andares recheados de BDs se misturam a bonequinhos de Tintin e outros heróis clássicos. A livraria faria muitos nerds terem um piri-paque. A loja tem um acervo riquíssimo, e trabalha também com livros de arte,filmes,CDs e tem uma sessão exclusiva de livros dedicados a Lyon: livros de imagens históricas, da culinária tradicional e da cultura lyonnaises. A sessão de Mangas também impressiona -já comentamos num outro post que o número de orientais aqui é muito grande, logo o mercado editorial é rico em material que vem da terra dos olhinhos puxados. Não só os mangas impressos, mais também os vídeos, as roupas e os bichinhos típicos da cultura japonesa, por exemplo, são encontrados facilmente por aqui.


** Tasse Livre Café **
38 rue Sergent Blandan 69001 Lyon

Na programação do Café/Livraria tem lançamento de livros e BDs, apresentações musicais e exposições de artistas locais.

17.11.10

o mês dos documentários

Novembro é o mês do filme documentário na França. Nos moldes do brasileiro "É tudo verdade", o Mois du film documentaire abre espaço exclusivamente para filmes que falam da atualidade ou que resgatam alguma história/biografia verídica. Em diversas cidades, projeções estão sendo feitas desde o dia 03/novembro e terminam no próximo dia 30/novembro. Em Lyon serão apresentados 25 filmes e as sessões acontecem em 9 bibliotecas. A edição 2010 tem como tema Noir , apresentado em muitas de suas suas possibilidades: a noite, o ocultismo, a causa negra americana, o negro na musica e na literatura, e por aí vai.
No final do mês começa um segundo festival,o DocEnCourts, dessa vez com foco nos documentários de curta duração, exibe filmes de jovens diretores: conferências, mesas redondas, competição e programação reservada a produção de estudantes de artes, arquitetura e cinema de universidades de mais de 20 países.


Os cartazes de Le mois du film Documentaire e DocEnCourts


Primeira grande estrela negra da história, a americana Josephine Baker nascida em 1906, conquistou a França aos 19 anos, dançando de um forma única, cheia de humor e sensualidade. História de sua carreira e de sua vida pessoal. Filme: Josephine Baker en couleur, França/2005 - direção de Rio Yves e Pouchain Phillippe.

Esse vídeo não faz parte do documentário, Josephine Baker en couleur mas da uma dimensão de quem foi a dançarina.

Até agora assistimos apenas o filme Josephine Baker en couleur sobre a ousada dançarina e o documentário Les rêves dansant sur les pas de Pina Baush , Alemanha/2010 - direção de Linsel Anne e Hoffmann Reiner.
*** Programação completa aqui: http://www.moisdudoc.com/ e aqui:



15.11.10

arte: novas experimentações

Como as 24 horas semanais de estudos da língua e da cultura francesa não são suficientes para preencher meus dias (risos) resolvi me inscrever num dos ateliês de arte da ENBA - École Nationale de Beaux-Arts de Lyon.

École Nationale de Beaux-Arts de Lyon

São mais 6 horas semanais. Minha intenção ao me inscrever era rever algumas técnicas já conhecidas, aprender técnicas novas, e claro, encontrar outros estudantes/artistas nessa terra estrangeira. Os encontros tem sido super bacanas, e meu professor até arrisca um português (de Portugal, risos). Nas últimas sessões trabalhamos com desenho de observação (o que já estava me cansando), uma vez que minha intenção principal , além das ja citadas, ao me inscrever no tal ateliê era principalmente as aulas da segunda semana de novembro: técnicas de reprodução - Linogravura, Ponta Seca, Água-forte, entre outras. Pois ainda não entramos nessa parte e eu resolvi ontem, num domingo chuvoso e friorento arregassar as mangas, sujar e bagunçar toda a casa e preparar de um jeito capenga minha primeira linogravura. Mãos pretas, com calos e alguns arranhões depois:

Placa de linóleo ainda virgem pronta para
ser "cavada"

A brincadeira começou no início da tarde de domingo e
terminou no fim da noite...

14.11.10

descobrindo lyon: 1er arrondissement

Quando procurávamos apartamento há dois meses, percorremos metade dos “arrondissements” de Lyon (são 09) atrás de um lar. Depois de vários anúncios e visitas frustradas, caímos de paraquedas (sim, porque depois de duas semanas de buscas e incertezas, não dá para dizer que foi de fato uma escolha) no 1er arrondissement. Nossa única exigência naquela altura era que ele fosse relativamente próximo à nossa universidade (estamos a 10 minutos de bicicleta ou 30 minutos a pé). Ou seja, estava perfeito.

Arte clássica e arte de rua: Les amants heureux, meu primeiro Courbet, do acervo do Musée de Beaux-arts de Lyon e uma arte na rue des Tables Claudiennes

Aos poucos fomos descobrindo que talvez essa tenha sido a melhor das casualidades. Estamos relativamente próximos à universidade, a 10 minutos a pé do Parc de la Tetê D’or e do Musée d’Art Contemporain de Lyon, praticamente ao lado da Opéra Nationale de Lyon, com grandes espetáculos de dança, música, teatro e ópera toda semana - não que a gente ou nosso bolso dê conta de estar lá toda semana, muito pelo contrário (risos).

fazendo palhaçadas com a velhinha lyonnaise na Place des Terreaux


Estamos ainda a dois passos do Musée de Beaux-Arts de Lyon e da Place des Terreaux. Nesse bairro tem três cinemas de arte e ensaio (Le Cinéma, CNP Terreaux , Cinéma Opéra). Na rue Royale (onde moramos) estão instalados 02 pequenos teatros (Comme des Étoiles e o Thêatre de L’intervalle) e meia dúzia de restaurantes, entre eles o aconchegante L’ourson qui boit e o Mère Brazier, um dos mais famosos (ao lado dos de Paul Bocuse), e tradicionais restaurantes de Lyon, além de três boates, escritórios de design, arquitetura e moda. Isso tudo em pouco mais de 100 metros. Na quadra acima (começa a subir para o bairro Croix -Rousse), se espalham mais teatros, pubs, clubes de jazz e, para felicidade do artista aqui, várias galerias de arte - principalmente na rue Burdeau, são mais de dez, praticamente uma colada a outra. Boa parte delas trabalham exclusivamente com fotografia e a outra parte com arte tradicional. A rua tem o próprio jornal cultural, o RDV – Rue Burdeau Art. No número 41 da rue des Tables Claudiennes está a Galerie All Over que tem foco em street art . Os garotos que comandam o espaço ainda trabalham na produção de cartazes e pequenos livretos em serigrafia – um deleite! No cruzamento desta rua com a Montée Grande Côte no número 46 está a Singul’art . E por todo lado cafés, restaurantes, livrarias (novas e antigas), todo tipo de comércio e de atrativos culturais... A gente ainda nem descobriu tudo.


A chacun sa tasse - casa de chás na rue Griffon

Interior da Galerie All Over


Esse post é o inicio de uma série de informações sobre cada arrondissement e seus atrativos. A gente vai escrevendo aos pouquinhos, ok?

13.11.10

outono amarelo

A paisagem em Lyon mudou radicalmente nos últimos dois meses. Aquele solzinho gostoso nas tardes de sábado já não aparece mais com tanta frequência e as semanas têm sido mais cinzas. As árvores estão com suas folhas amareladas... Nunca senti tanto a sensação "outono-folhas caem" como aqui:


vinicius: andando pelas calçadas cheias de folhas secas, sempre dá uma vontade infantil de se jogar naqueles montes de folhas de árvore. sempre que eu tenho oportunidade dou uma pisadinha ou passo por cima com a bicicleta. é tão bobo, mas é tão bonito e divertido!

théâtre les Célestins de cara nova

Les Célestins tradicional

Les Célestins, um dos teatros mais antigos de Lyon, projetado por Gaspard André, propôs a quatro artistas de rua para que ilustrassem a casa de espetáculos para sessão 2010/2011. No início de outubro três deles, Brusk, Dran e Jaw se reuniram e deram nova cara para a fachada do teatro. A criação associada a pintura e lambes, tem por fim captar e desestabilizar a maneira de olhar as linhas e os contornos de um monumento histórico. Até dia 21 de novembro.

Les Célestins de cara nova

Vídeo do processo de criação

3.11.10

quando não se sabe o que fazer do amor

Ele tem 21 anos, passou duas vezes consecutivas por Cannes (2009/2010) e atualmente produz seu terceiro longa metragem: Laurence Anyways. O jovem diretor canadense Xavier Dolan fez nos últimos dois anos dois longas, agora descobertos por nós.

O primeiro, J’ai tué ma mère - 2009 (“Eu matei minha mãe”), fala da relação de um adolescente com sua mãe, a partir de conflitos típicos de uma idade turbulenta cheia de descobertas e decepções que orbitam esse ser dramático que é o adolescente. Uma relação familiar extraída da própria experiência de Dolan, que além de produzir e dirigir é também o protagonista do longa.

j'ai tué ma mére (2009)


Em, Les amours imaginaires – 2010 (“Os amores imaginários”), o caráter biográfico é desenvolvido a partir de cenas em que jovens contam alguma de suas experiências amorosas, compartilhando suas sensações, decepções, desejos e ressentimentos. Assim, o filme traz algo de documental intercalado à narrativa, nos aproximando à ideia do amor como algo criado por uma expectativa, ou mesmo como uma atividade lúdica em que nos envolvemos com certa gana a ponto de nos colocarmos em situações estranhas em que fazemos de tudo para alcançar o objetivo, conquistar alguém. Mas o que fazer quando parece que entendemos tudo errado?

cartazes de "les amours imaginaires" (2010)


Dá para notar em algumas cenas referências a Pedro Almodóvar e em especial a Wong Kar Wai - chega a incomodar em certos momentos, mas não prejudica o filme como um todo.